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vivemos num mundo semântico. as imagens, os episódios, os factos, a
vida e a morte, são interpretadas ou criadas semanticamente. sem dúvida que há
uma realidade, mas sobre esta foram sendo acrescentadas camadas e mais camadas
de gerações semânticas. tanto se afastou que só consigo dizer que vivemos num
mundo a fingir.
alguns poetas constroem os seus mundos semânticos. são mundos
alternativos e, na medida em que mergulham nas ruínas semânticas do mundo a
fingir, possivelmente aproximam-se mais da realidade como ela é. não que tal
lhes sirva de grande coisa. a poesia é uma grande solidão, embora uma solidão
acompanhada. e a companhia a que me refiro é o tudo, o cosmos, o universo. o
espírito do mundo, o que chamamos espiritualidade. alguns chamam-lhe Deus.
contudo, são simplesmente nomes para o prodígio da existência e da vida. jamais
o nome para o que designa poder, subserviência, adoração ou domínio. o caminho
do bem prescinde destes nomes. e é por isso que a poesia tem uma vocação ética,
mais que estética. a não ser que esta seja o nome que esconde o outro