quando pensavam ter-me agarrado no charco, mais os meus animais, as azedas,
os nenúfares e as margaridas, mudei-me para uma folha de papel. tentem apanhar-me
agora...
"jesus não veio salvar ninguém, e ainda menos a nós. o que jesus fez foi uma escolha ética: o caminho do bem. tudo o resto, verdadeiro ou ficcionado, decorreu da integridade da escolha que fez na sua vida. não salvou ninguém, mas pode ter salvado Deus"
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é assim que abre o livro “a crucificação segundo jesus” (2024). jesus, como outros que fizeram aquele caminho, não foi compreendido, nem durante, nem depois da sua morte. as igrejas mais não fizeram que propagandear ideias disparatadas e interesseiras. mas jesus, verdadeiramente, apenas quis espalhar uma boa nova: a de que é possível a cada homem cumprir um desígnio pessoal, uma demanda para a sua existência, que torne essa existência tão digna como a de todos os outros. ele falou de amor, de gratidão, de amizade, de compaixão. ele não defendeu qualquer tipo de submissão, sujeição, conquista. sim, é verdade, usou parábolas e metáforas, como conquistar o coração do outro, ou dizer que o seu reino não é daqui. mas conquistar o coração do outro não é mais que uma maneira de indicar ao outro o caminho que ilumina. e o caminho que ilumina é o do bem. é uma escolha ética. jesus fez uma escolha ética, e foi essa escolha que propôs aos outros. em nenhum livro, em nenhuma pedra pode estar escrito o sentido do mundo, seja para o mal seja para o bem. a escolha é uma decisão, é o encontro com todos os que eu sou. não há estrangeiros, porque é impossível eu ser estrangeiro para mim.
e que outro reino? não se tratava de qualquer outro lugar. era aqui que ele referia. aqui é o lugar de todas as existências e de todas as vidas. e é neste lugar que cada um de nós pode fazer uma escolha ética. o reino que apregoava era, não só aqui, mas tinha um nome não dito, não revelado: o bem.
e por isso, demasiado ele soube que não podia salvar ninguém. porque salvar alguém é salvar de quê? já estava dito. a salvação não é um assunto para depois, para outra vida. a salvação é uma escolha ética, que decorre aqui, na vida, na existência de cada um. nessa escolha que ele fez. essa em que ele convida os outros. jesus não morreu para salvar alguém: salvou a si mesmo, pois essa era a única escolha e gesto possíveis. exactamente como sócrates fez antes dele. ninguém pode salvar quem quer que seja, precisamente porque ela, a salvação, consiste naquela escolha, que é sempre uma escolha ética. salva-se não em nome ou por causa de uma divindade, mas porque salvação é só mais um nome para quem sobe ao lugar mais alto da sua existência. o bem. e só o bem nos pode salvar da devastação.
e ele soube que cada homem é uma avassaladora solidão, e que é a consciência de tal que traz a semente da viagem que é necessário fazer para o outro. o próximo. aquele que, não sendo eu, é viajante de mim. o estrangeiro sou sempre eu, nesta consciência, que me torna uma impossibilidade de solidão: ninguém consegue ser estrangeiro de si (senão num primeiro momento, que é o momento do espanto), por via dessa consciência, que sempre impele para o outro. para a compaixão, para a gratidão, para o amor. é que a consciência revela a existência de uma alteridade, de uma presença. essa que anda lá fora na noite escura.
sim, jesus não vai ser crucificado para salvar os outros. integridade é o que vai conduzi-lo à morte. Integridade é, antes de tudo, uma escolha ética. a recusa em ser alguém que nunca quis ser. integridade é uma virtude do caminho do bem. e se ele quis fazer de todos, e cada um, o seu mais próximo, o mundo dos homens tratou de fazer dele um estrangeiro. recusaram-lhe a humanidade para melhor matarem o seu recado. o recado de que a salvação é um assunto de cada um e é daqui, deste mundo. essa foi a sua mensagem.
e foi a essa mensagem que jesus chamou Deus
os anjos não têm asas
mas o meu coração tem duas asas
poema
as minhas avós e a minha tia-avó/
viveram num tempo que tudo lhes pediu//
e às vezes tinham dias/
mas era à noite/
que tudo se repetia//
como se fosse uma sorte/
uma vingança uma maldição/
ou então uma espécie/
de coisa muito/
forte/
que acontecia