sexta-feira, 21 de dezembro de 2007


eu não sou digno da tua palavra
nem da chuva destes dias
de inverno tardio

e o que sinto
é sempre uma pequena parte
do que me dás

ou talvez seja eu que não entenda
quase nada
e a minha vida seja
afinal

o longo caminho do não saber

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

pequena prece para os amigos


Senhor

dá-nos mais instantes como estes
árvores seguras para os pássaros
instantes felizes para os homens

uma visão clara do mundo
e um pensamento nobre
uma mão contente nos amigos
e outra nas aves que passam.

e assim sejamos no caminho certo

Senhor

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

eis o que me aflige
o lento devagar das árvores
e tudo o que dentro delas

acontece

domingo, 11 de novembro de 2007

todos os dias regresso a nossa casa.
por lá vejo tudo o que permanece

as linhas dos meus dedos
minúsculos rastos
da pele das minhas mãos e pés

a minha sombra sempre triste
por entre os livros
por entre os móveis
angustiada na cama
e sob o chuveiro dos infortúnios.

e vejo a tua sombra que me segue
sem me entender
as tábuas que se quebram com os anos
os amigos chegando a tardias horas da noite
as cartas que persistem em procurar-me.

e eu que todas as coisas guardo
no sítio onde estão

sou afinal o único que já partiu

sábado, 3 de novembro de 2007

leva-me contigo pássaro
da manhã

para lá de tudo o que dói e cansa
pelas frestas do sol
até às janelas do mundo

sem peso nem mágoa
leve e sossegado
na aragem das tuas asas

incauto e puro como os teus olhos

até que todas as portas
abertas sejam

no meu coração

sábado, 20 de outubro de 2007

já nada me contenta.

flutuo agora entre as asas e o abismo
dos meus poemas
levado por palhas e desejos

ah se ao menos o meu corpo fosse
a tua casa
e nela abrisses as janelas
e depois me acenasses
como as crianças fazem quando é noite
e adormecem

mas as minhas mãos são navios
que nunca se contentam

domingo, 14 de outubro de 2007

outra pequena oração

o dia em te encontrei
era outono nas folhas e nas árvores

e eu fiquei quieto na tua luz
enquanto as sombras se juntavam
nas asas dos pássaros

e depois uma coisa feliz desceu sobre
a minha sombra e a tua

que eram talvez mais que duas

e agora são apenas uma