sábado, 14 de junho de 2025

 


e no que respeita

à poesia

 

desejo

 

que nunca o seu nome

seja invocado em vão

 

que no seu lugar

mais alto

a mão

 

a mão que colhe

não seja a mão

que vende

 

que no seu coração

floresça a recusa

do iníquo

 

e assim cada palavra

regresse a casa

e ao vento

 

luminoso o

caminho


quarta-feira, 11 de junho de 2025

 


40

 

a minha tia avó tinha

uma casa redonda

num lugar de onde

se via o sol

 

a tia avó

era tão velhinha

 

que através dela

eu conseguia ver o

mundo

 

chamava-se chau

que é também

nome de gato

 

um dia levaram-na

a ver a cidade e

morreu

 

o corpo

claro

 

não a sua casa

de ver

o sol

domingo, 1 de junho de 2025

 


306

 

uma criança

pega o sol

numa das mãos

 

e com ele

faz um arco

 

ou talvez um gesto

que seja leve

 

e seja um pássaro

 

e então

o arco e o pássaro

 

soltem as asas

e no sol

 

o mundo

quinta-feira, 29 de maio de 2025

 


297

 

o tempo vem

com as rosas

 

encontrei-o

a cantar

na rua

 

veio a chuva

chegou a noite

 

e o grilo voltou

a cantar na

eira

terça-feira, 27 de maio de 2025

 


302

 

já me disseram

que longe não tem

plural

 

mas é que

nos meus poemas

tudo é prodígio

 

e cada coisa

é múltipla de si

 

e assim longes

é o plural de longe

 

como infinito

é singular de infinitos

 

é o que te digo

 

nos meus poemas

nascem

 

prodigiosos

impossíveis

segunda-feira, 19 de maio de 2025

 


302

 

bem-aventurados
os pobres de espírito

 

os que não olham

e olhando não

vêem

 

os que sentem

e sentindo

ignoram

 

os fáceis

os resumidos

 

os cultos

e os presumidos

 

eles nunca verão
a Deus

 

e nós também

domingo, 18 de maio de 2025

 


desde que a literatura se tornou cúmplice

 

desde que somos poucos

os que resistem

à estória do lobo

e da raposa

 

à invasão da europa

por frankenstein e custer

 

desde que a poesia

se tornou literária e afins

 

a linguagem do não sei quê

com metáforas em vez

de gente

 

colaboracionista de um mundo

sem sentido outro que não seja

o do mercado

 

thackeray anunciou

eliot avisou e carroll adivinhou

 

mas os poetas tornaram-se

cultos e cegos

 

a feira o negócio

a síndroma da branca de neve

 

a maçã podre das igrejas

a conivência com o mundo a fingir

 

e agora ficou ninguém

 

olá ninguém