sábado, 24 de agosto de 2024

 

amarás o teu próximo

acima de qualquer deus

 

e não matarás em seu nome

a dignidade do outro

que é em ti

 

por qualquer

estrada que sigas

nunca irás só

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

 

espero que um dia

a literatura acabe

 

aguardo o fim

das igrejas e das religiões

 

antevejo dias claros

na inclinação das ervas

 

e tu

 

estás pronto

para a verdade nunca dita

 

alma minha gentil

e contente

 

que por noites

nunca antes navegadas

em tempo e modo

 

e por amigos e lugares

repartida em anos tantos

mas nunca de fadiga nomeada

 

e que se mais longa

a vida fosse

em tudo

o que de nós parte

 

nunca a falta seria

de engenho e arte

 

 

109

 

piquei-me na

rosa que eras tu

 

toquei a dor que

era eu

 

guardei tudo no

coração que

era teu

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

 

e se agora me desses

tudo o que me falta

no coração

 

as mãos abertas

em tudo o que recusei

 

o que amei

num dia de chuva

em que não vieste

 

aceitar que ser pobre

é trazer o mundo

no coração

 

e por isso

pouco ou nada me faltou

 

agora sei

 

ninguém sobe

à sua cruz

 

num dia quente

de verão

 

as metáforas

são coisas sobre

outras coisas

 

nos meus poemas

não há coisas

encavalitadas

 

se digo escaravelhos

é escaravelhos

 

se digo sol

se digo muros

 

a nada mais me refiro

 

os anjos dos meus poemas

não são pássaros

nem vaga-lumes

ou aparições

de almas penadas

 

não são

candeeiros da cidade

 

são apenas anjos

 

igualzinhos a ti

e a mim

 

só que voam

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

 

107

 

senhor

protegei-me das elites

 

essa gente que

se esfrega nas

estradas

 

que dá nomes

ao já tem nomes

 

os classificadores

sem coração

 

e dai-me

de tudo o infinito

estranhamento