quinta-feira, 26 de setembro de 2024

 


                                  /para maria/


perdoa-me se não fui

quem esperavas

 

quem esperavas

não veio

 

nunca chegou

a abrir a tua porta

 

nunca tocou os teus olhos

numa das suas mãos

e disse

 

vim de tão longe

que já não recordo

de onde vim

 

este sou eu

 

culpado de tudo

o que não te deu


 


perguntaram-me se já não escrevo do charco, se já não há a rã nos meus poemas. que agora há Deus a mais. então? então não percebem que é do charco que escrevo, e que a rã sou eu, um dos muitos nomes que a rosa tem? que tantos são os nomes do mundo

 


                         /sobre uma fotografia de lídia bacelar/

193

 

para ver-te

hei de cegar

 

para olhar

te abraço mais

longe

 

amplio-me

 

faço um retrato

da tua ausên

cia

 


192

 

aquele que vai

em silêncio

 

caminha numa

solidão sem nome

 

escuta-o

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

 


191

 

por todo o lado

 

na chuva no ar e nos

charcos

 

nos casebres pobres

e abandonados

 

nas árvores que

nos olham de passagem

 

e naqueles caminhos onde

já ninguém passa

 

aleluia outono

 

que dei o teu nome

ao que vejo nos

olhos

 

às mãos envelhecidas

por olhar-te tanto

 

aleluia outono

 


vem cá

 

está na hora de rezares

e repetires comigo

 

que nada me contenha

nesta vida

 

nem sol nem trabalho

nem descanso

 

e de tudo

eu seja o lugar

onde tudo me conforta

 

e para que toda a sombra

seja luz

 

movo-me e caminho

em silêncio

 


ó mestre das abelhas

 

conhecedor das feridas

que as duas mãos trazem

 

feitor das plantas aromáticas

e das cores e outros

tons subtis

 

que ontem

desceste da macieira

a cantar de pássaro

 

e voas que não voas

onde nada se move

 

é de ti que falo

aos meus amigos

 

para que te vejam

para que te ouçam

 

para que te sigam

em silêncio