quarta-feira, 7 de agosto de 2024

 

eu não escrevo

por este ou aquele motivo

 

como talvez fazer arte

ou salvar o mundo da obscuridade

 

ou ser como aqueles poetas

que contribuem para a grandeza

da literatura

 

eu simplesmente não sei

 

a única coisa

que parece que sei

 

é que se vê muito mal

lá fora

 

gostava de conseguir explicar

que não escrevo poemas

de literatura

 

os meus poemas

são animais sem sombras

 

como são as flores

no meu quintal

 

aquele abraço

que dei uma vez a um gato

e agora é um deserto

que não alcanço

 

o olhar nas minhas crianças

que vai com elas

e nunca mais terá regresso

 

o gesto que se move

em redor de tudo

o que se parece com o mar

 

porque assim

são os poemas

 

que são a própria vida

terça-feira, 6 de agosto de 2024

 

porque não acreditaram

não foram salvos

 

porque não quiseram ver

não lhes foi dado

 

as suas noites

eram palavras desabitadas

onde nunca houve água

 

uma casa que se abria

por dentro

mas eles não sabiam

 

e por isso

não foram salvos da vida

 

que já não tinham

                                                  

                                                     (para maria)

se te desse o meu coração

 

dar-te-ia também uma estrela

e uma fotografia muito pequena

onde estivéssemos

só tu e eu

 

tu e eu muito parados

sem mexermos os olhos

ou as mãos

 

iguais às cadeiras

e à luz quieta na sombra

dos móveis

 

para que assim

pudesses recordar-me

 

quando eu já não esteja

 

pai que estás no céu

 

guarda-me de querer viver

outra vez

 

igual seja

aos pássaros e aos gatos

que se movem no ar

sem pretensões

 

nada repetido

e nada que seja demais

 

e me deixes saber

que basta um coração

para tudo o que vale a pena

 

uma porta de entrada

e um abraço à saída

 

as vezes é mesmo assim

 

que não sou digno

de continuar a vida sem ti

 

respirar o ar que era teu

 

usar as tuas palavras

como se fossem minhas

 

depois calo-me

e sigo em silêncio

                                     (para as minhas filhas)

quando um dia

deres pela minha falta

lembra apenas

que ainda estarei aqui

 

nas tuas mãos

nos teus olhos

 

talvez até

em algumas palavras

que digas

 

pois

realmente impossível

é que mesmo em algum lugar

improvável

 

não estejas tu

eternamente

 

no meu coração