sábado, 12 de abril de 2008

o que te disse nestes dias
em que tudo se transformou em chuva

as notícias a insensatez
as mortes

a certeza de uns
e a pobreza de outros

e alguém dorme comigo todos os dias
nesta coisa estranha
que nos deste

oh dá-nos uma vida
onde uns e outros sejamos

a flor nunca dita

domingo, 30 de março de 2008

jura que nada
ficará fora de nós

nem espaço nem tempo

nem onde
nem porque

sábado, 22 de março de 2008

já ouvi falar de pessoas como tu

que atravessam as ruas
em sítios perigosos

e se enchem de pássaros
por onde passam

e são como os peixes
e sobre a água da chuva vão
serenos e descalços

até que faça frio.

e um dia começam a falar com as flores
e dizem com gestos nas palavras
o pão o vinho a água

e sei que houve uma noite
em que foste mais do que esta vida

e colheste amoras e outros frutos
para um cesto
que nós desconhecemos.

e então pediste-nos uma cruz

segunda-feira, 17 de março de 2008

tanto quis este homem ser
num dia de chuva

e leve tão leve caminhou as águas

e tanto quis
as duas faces do rosto ser

num dia verão
noutro talvez uma tarde de inverno

e eram tantos os pássaros e as asas

quando a noite trouxe
a sua sombra

numa cruz

sábado, 8 de março de 2008

a minha mãe já não entende o mundo

e as suas palavras descem sossegadas
misturam-se no ar e nas paredes

são borboletas são pássaros
pequenas coisas de carinho

um poço mais fundo
onde se vê tudo o que há no mundo
onde as laranjas têm árvores
e crianças nas janelas

e eu corro em campos de alegria
com uma dor no coração

sábado, 1 de março de 2008

para a Sílvia Brites

há mais coisas no mundo
mais dias na vida

rosas casas
barcos no mar
conchas e mistérios na areia

árvores que deram fruto
paisagens onde estamos

e o que foi feliz pode ser triste
pois as coisas também se quebram.

mas à medida que envelhecemos
percebemos

que pode haver alegria
mesmo naquilo que não temos

domingo, 3 de fevereiro de 2008

eu não sei
como é com as outras mães

mas a minha ensinou-me
a ver os pássaros que dantes
as árvores tinham

outras vezes
com as suas mãos
passava sobre as minhas dores

e ficavam pequenas rosas
que ainda hoje não entendo

e cuidou de mim nas minhas feridas
aconchegou-me nos dias frios

e nas noites de pavor e medo
mostrava-me um senhor numa cruz
e dizia-me que assim era também o seu amor

a mãe deu-me tudo

e quando um dia quis pagar-lhe
essa incomensurável dívida

já não estava