segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

 


esta noite

 

Deus e eu

sentámo-nos lado a lado

a olhar as estrelas

que há no charco

 

não nos movemos

nem falámos

 

aos amigos

o silêncio basta

domingo, 19 de janeiro de 2025

 


301

 

gosto dos dias

sombrios e chuvosos

 

como hoje

 

manhãs enevoadas

e tardes frias

 

a lareira acesa

antes que seja noite

 

os gatos

muito sossegados

 

e as paredes cheias

das artes do rui pascoal

e do fulvio

 

lá fora no quintal

 

talvez o sapo

regresse

 


eis a boa nova

 

há um poeta que escreve poemas

sem literatura

 

agora os que não caminham

já podem perder-se

à porta de casa

 

não serão necessários cegos

para quem não vê

e bem-vindos sejam esses

e outros equiparados

 

quem fala poderá calar-se de uma vez

ou em opção

 

falar até não ser ouvido

 

os mentirosos serão salvos

pelo menos neste reino

que no outro não há atalhos

 

os que não pensam

poderão constatar que um caracol

é muito mais rápido

que a eternidade

 

e a sua frustração será sem fim

 

aqueles que praticaram

com entusiasmo e perseverança

todos os pecados mortais

 

não verão a Deus

é certo

 

mas também a morte

deles não saberá

 

do mesmo modo

aqueles que tanto nos afligem

finalmente verão como é escuro

o que não se alcança

 

e embora muitos o desejem

jesus cristo não voltará a ser crucificado

 


                               poemas para escrever em paredes

36

 

aqui declaro

que desisto de ti

 

só não desisto

de amar-te


sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

 


aqui é onde começa

a água

 

e nenhum rio

se faz sem ela

 

também esta mão

começa na outra

que não vês

 

também ela

vem da água

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

 


declaro que este poema

há de crescer para amar-te

ainda mais

 

ele dirige-se a ti

 

em cada pedra

onde tropeça

 

em cada engano

ou em cada desengano

 

cresce o seu amor

por ti

 

deram-lhe paredes

e pedras muito grandes

 

talvez

 

mas o amor  

é cego e não se vê

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

 


creio nas baratas

e no ar que respiram

 

não creio na literatura

 

creio no silêncio

do que não entendo

e creio nas baratas

 

que sabem

os seus atalhos

 

mas não creio

na literatura

 

creio nos anjos

que ainda ninguém viu

e creio nas baratas

 

que não têm segredos

 

e ainda assim

não creio na literatura