quarta-feira, 2 de outubro de 2024

 


eis por que sou ignorante

 

não leio

nem colecciono factos

 

tudo o que faço

é guardar o que não tenho

 

uma vez descobri

que do tamanho do que sou

é a chuva

e nem sempre chove

 

agora tenho um quintal

de onde se vê o mundo

que é como

quem diz

 

a minha ignorância

 


sobrevivi

a umas quantas

coisas

 

mas não a ti

 

não cheguei

fui ou venci

 

antes da guerra

começar

 

já eu era

o vencido

terça-feira, 1 de outubro de 2024

 


194                                              /dois poemas sobre o meu auto-retrato/

 

hoje fiz o

meu boneco

 

com uma rolha de

cortiça e dois

fósforos

 

para cabeça usei

uma azeitona

 

o coração não

se vê

 

anda

encontra

me

........

 

195

 

quase no final

do poema perguntas

 

onde estão

ouvidos nariz olhos

boca

 

e eu digo-te

esta azeitona é

lisa

 

então tu ris

te muito e eu

mergulho na piscina

 


no tempo

em que fui criança

 

não quis ser

ser crescido

 

e quando cresci

foi forçado

 

relutante o coração

relutante o pássaro

 

enquanto via

tanta gente crescer

e tornar-se importante

 

olha

fui sempre

desinteressado


 

há quem julgue

que sabe quase tudo

sobre o mundo

 

eu sei quase nada

sobre as mãos

 

há quem viaje muito

e para lugares tão longe

 

eu trago estrelas

nas mãos

 

também

há quem saiba

quase tudo sobre Deus

 

eu faço desenhos dele

no chão

 

há quem só queira

ir morar no céu

 

eu já plantei as rosas

e ajoelhei no coração


 


eu sei o verbo

cantar com os pássaros

 

e conjugo o infinito

numa só gramática

 

e tenho uma tabuada

de cantar com os pássaros

 

eu multiplico

eu adiciono

 

mas nunca divido

ou subtraio

 

cantar

com os pássaros


 


podíamos ser devagar

 

e olhar as coisas

sem lhes tocarmos

 

uma alegria

que fosse quase

do tamanho

 

mas nunca maior

ao que havia

 

e assim a tristeza

 

tudo

em medida bastante

 

do grande ao pequeno

do longe ao perto

 

e nós chegarmos

ou irmos

 

sem algum lugar

para chegarmos

 

sem algum lugar

para ficarmos

 

como se fôssemos

chuva