terça-feira, 1 de outubro de 2024

 


no tempo

em que fui criança

 

não quis ser

ser crescido

 

e quando cresci

foi forçado

 

relutante o coração

relutante o pássaro

 

enquanto via

tanta gente crescer

e tornar-se importante

 

olha

fui sempre

desinteressado


 

há quem julgue

que sabe quase tudo

sobre o mundo

 

eu sei quase nada

sobre as mãos

 

há quem viaje muito

e para lugares tão longe

 

eu trago estrelas

nas mãos

 

também

há quem saiba

quase tudo sobre Deus

 

eu faço desenhos dele

no chão

 

há quem só queira

ir morar no céu

 

eu já plantei as rosas

e ajoelhei no coração


 


eu sei o verbo

cantar com os pássaros

 

e conjugo o infinito

numa só gramática

 

e tenho uma tabuada

de cantar com os pássaros

 

eu multiplico

eu adiciono

 

mas nunca divido

ou subtraio

 

cantar

com os pássaros


 


podíamos ser devagar

 

e olhar as coisas

sem lhes tocarmos

 

uma alegria

que fosse quase

do tamanho

 

mas nunca maior

ao que havia

 

e assim a tristeza

 

tudo

em medida bastante

 

do grande ao pequeno

do longe ao perto

 

e nós chegarmos

ou irmos

 

sem algum lugar

para chegarmos

 

sem algum lugar

para ficarmos

 

como se fôssemos

chuva

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

 


todo o amor fosse

uma maneira de saber

 

de chegar a um lugar

qualquer

e daí partir

sem nunca chegar

 

e fosse ainda

uma coisa de se ver

 

como as laranjas

os pássaros os gatos

 

ser tudo

e nunca ser demais

 


o poeta não busca posteridade. ele aprendeu que essa é uma palavra sem fundo

 

o poeta não busca prestígio. ele sabe que tal palavra pesa muito e cega

 

o poeta não escreve para que um leitor o leia. poucos serão os que, realmente, hão de lê-lo

 

o poeta não tem motivos úteis para escrever. ele desconhece por que escreve

 

o poeta não escreve para que outros se sintam alegres ou tristes. ele revela

 

o poeta não apregoa verdades. ele torna-se a sua verdade

 

o poeta sabe que nenhum poema é escrito com palavras

 

o poeta nunca há de estar onde o procuram

 

o poeta não morre uma vez. morre as vezes necessárias

 

o poeta escreve contigo. embora ainda não saibas, tu és Deus


 


qualquer gesto

palavra ou nome

 

a dor

que te abriu as feridas

com que saudaste

os amigos ou os estranhos

 

a chuva

que te escapou

por entre as mãos

 

o dia cego

e a noite aberta

 

a cruz

que de entre todas

era a tua

 

ajoelha-te

companheiro

 

qualquer porta

serve