quinta-feira, 5 de setembro de 2024

 

150

 

aprendi a voar

num dia de semana

em que tu não estavas

 

abri as janelas

e tu cantaste

 

voei da

casa inclinada

 

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                                         para o fernando

primeiro

aprendemos a voar

 

é quando somos

crianças

 

depois dão-nos

sapatos e só conhece

mos o chão

de onde vemos

tudo a direito

 

as nuvens as casas

e até o sol

 

já no fim

subimos a lugar muito

alto de onde abrimos

os braços a voar

 

é quando morremos

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

 

um homem queria

curar-se

 

então crucificou-se

no luar

 

o vaga-lume

a rã

o desenho

de uma criança

 

e uma sombra

que não sabia de nada

 

sentaram-se

 

e foram também

curados

terça-feira, 3 de setembro de 2024

 

vamos rezar

 

 

senta-te

ajoelha-te ou

então inclina-te

 

tira uma das mãos

ou as duas

e abre-as

por inteiro

 

nada nas mãos

deverá ficar por abrir

 

dirigi-as com as palmas

para cima

ou para o lado

do que resta no teu corpo

 

depois fecha os olhos

até que nada

nem tu

 

deixe de estar ausente

 

é quando sentes

que há uma rosa

que começa a abrir-se

 

e que quanto

mais se abre

mais tu deixas

de estar

 

então

sentes que és pobre

e não pertences

senão a ti

na ínfima parte

que te cabe do mundo

 

agora

não peças nada

 

tu és a oração

 

senhor

 

enche-me

de ignorância

 

crucifica-me

no teu silêncio

 

amarra-me as mãos

 

para que delas se apaguem

todas as palavras

inecessárias

 

disseram-me

que nos poemas

nunca se reza

 

pois nenhuma palavra

alcança Deus

 

compreendo

 

mas os meus

poemas

 

apenas

parecem ter palavras

para quem

ainda

 

não cegou

 

a lagarta caminha

em silêncio

 

o homem não

 

Deus

calado e quieto

nem a boca abre

por não ter

 

o homem

tagarela e vaidoso

não se cala

 

só na morte

conhece o silêncio