segunda-feira, 2 de setembro de 2024

 

143

 

nos meus poemas

 

não há palavras cultas

nem deuses gregos

 

ou aqueles mitos que

tanto agradam aos literatos

 

eu sou de origens muito

humildes

 

seja do lado da minha mãe

como do meu pai

 

somos pobres até

à morte

 

nasci numa

casa muito inclinada

 

perguntou a rã

ao senhor

 

por que nunca

te vejo

 

porque te fiz

cego

 

palavra

do tal senhor

 

um anjo foi falar

com a rã

e perguntou

 

quem és tu

 

dizem

que tal não é possível

 

mas nos meus poemas

tudo é coisa acontecida

 

eles nascem

numa rua colada

ao céu

 

domingo, 1 de setembro de 2024

 

foi-me dito

por sinais

 

que virás mais tarde

ou talvez nem venhas

 

e então eu soube

 

soube

só por saber

 

que hei-de chover

para que nada te falte

 

e hei-de morrer

apenas por saber

 

que tudo acaba

onde tu começas

 

na eira mais distante

da minha infância

 

do seu lugar mais alto

 

suspenso

com os pássaros

 

de mãos abertas

e ainda sem memória

 

foi daí

 

desse mais puro amor

e sem reservas

 

que vi

nascer o sol

 

no que respeita

à poesia

 

desejo

 

que nunca o seu nome

seja invocado em vão

 

que no seu lugar

mais alto

a mão

 

a mão que colhe

não seja a mão

que vende

 

que no seu coração

floresça a recusa

do iníquo

 

e assim cada palavra

regresse a casa

e ao vento

 

e luminoso

o seu caminho

 

140

 

já vos falei

da casa inclinada?