terça-feira, 6 de agosto de 2024

 

ontem explicaram-me

que nenhum poeta da literatura

escreve poemas de amor por gatos

 

os poetas importantes

escrevem poemas

sobre coisas importantes

 

é da sua natureza

 

e a minha é sentir a tua falta

 

e vou ao quintal

e semeio flores onde estás

 

e faço redondos muito azuis

mesmo que chova dentro

 

e rezo junto ao limoeiro

e da erva de s. roberto

 

peço a Deus

que te guarde num sítio bom

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

 

88

                               (para a lídia bacelar)

um fio de água

atravessa a minha

infância

 

vai até á

janela de casa e

olha algumas crianças

a meio da

rua

 

depois desce em

silêncio as escadas

 

que vão dar ao

mar

 

ninguém sabe

o que dizem os gatos

quando morrem

 

mas eu tive um gato

que ao morrer me disse

 

deixo-te o melhor

de mim

domingo, 4 de agosto de 2024

 

vem cá

 

está na hora de rezares

e repetires comigo

 

que nada me contenha

nesta vida

 

nem sol nem trabalho

nem descanso

 

e de tudo

eu seja o lugar

onde tudo me conforta

 

e para que toda a sombra

seja luz

 

movo-me e caminho

em silêncio

 

senhor

 

ao contrário de

outros eu não te

venero

 

nem falo em

teu nome ou em

promessas

 

nunca conquistei em

teu nome ou matei

 

nem te culpo pela

tua inexistência

 

aceito as

tuas imperfeições e

ausência e jamais te

comprometo com os

meus erros

 

acima de tudo

há muito que te libertei dos

meus compromissos

 

tu és a minha calma

sábado, 3 de agosto de 2024

 

tu senhor

 

criaste as flores

e as abelhas

 

engrandeceste

as coisas simples

e os sinais

 

deste-nos o que era teu

e deixaste

que usássemos a luz

e tudo o que era abundante

 

e depois ficámos sós

uns e outros

desmerecendo a água

e as nossas próprias mãos

 

e um de nós

que eras talvez tu

 

elevámos em humilhação

e morte

 

 

a minha poesia

é uma profunda ignorância

 

senhor

faz com que seja ainda mais

 

e que nela habitem os insectos

e as crianças da chuva

 

e que cada verso louve

a abundância da tua ausência

 

e que nela não haja soberba

orgulho ou impaciência

 

mas apenas silêncio