sábado, 3 de agosto de 2024

 

83

 

bom dia

Deus

 

que invocarei o

teu nome

 

sempre que

queira

 

muitas são as

estradas feitas

 

mas nenhuma me

convém

 

e assim invocarei o

teu nome no

 

sangue que

nunca foi o meu

 

pois meus são a

vida o corpo e o

coração

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

 

81

 

no mundo dos

insectos

 

nós

não existimos

 

água sol o

 

chão até perder de

vista

 


esforcei-me por cuidar bem das plantas

deixei-me estar apenas entre as aves

 

não espantei os outros animais

nem lhes roubei a sede

 

de longe fiz contas com as árvores

e os peixes cresciam no rio

 

embora os insectos me incomodassem

nos dias de calor junto aos amieiros

compreendi que buscavam um entendimento

 

e assim me esforcei por ser apenas um homem

que seguia os pássaros com os olhos

no coração

 

um dia a chuva veio

e era tudo muito calmo:

a erva sabia

 

o mocho e a cotovia sabiam


tudo o que tive foi sorte

 

os distantes dias antigos

que nunca se gastaram

 

os grandes rios

que foram um só

e de todos o mais profundo

 

e ter aprendido a rezar

sem crer

 

e viver com Deus sem que ele

saiba ou conheça

 

porque de quase tudo

fui segredo

 

assim a sorte do que amei

nos insectos nas amoras

e depois nas cerejas

 

a sorte dos poemas


quinta-feira, 1 de agosto de 2024

 

77

 

quando fiz amizade

com a rã

 

disseram-me

coisas

 

mas eu não

troco essa amizade

 

por coisas

 

uma formiga disse-me

 

alguns poemas vivem

dentro de nós

 

tudo o mais se quebra

 

quebram-se as linhas

os ângulos

e as portas dos quartos

 

quebra-se a chuva

e o coração das crianças

 

quebram-se os espelhos

e os seus rostos

impecáveis

 

todas as coisas foram vistas em detalhe

nasceram e cresceram como flores

 

tiveram dias plenos

noites de espera à varanda

e depois morreram como tudo morre

neste lado da casa e debaixo das cadeiras

 

e algumas vezes guardei o sol nas mãos

como se guardasse de ti

os vestígios todos

 

e então vi que as tuas marcas

estão nos peixes nas plantas

na calma dos pássaros

e no agitado animal faminto

 

e que a tua luz não tem reflexos

sombras datas tábuas corredores

 

o que todos os nomes dizem