terça-feira, 10 de abril de 2007

todos queremos ter
dentro de nós
uma coisa que nos proteja

uma rosa virada para o mar
um retrato velho sobre a cómoda

uma palavra antiga
onde tudo caiba

e a isto chamarmos
Deus

domingo, 11 de março de 2007

estas são as coisas que te disse

todas elas já arrumadas nas sombras
ou dentro de livros embaciados
outras caídas em manchas de roupas
que não têm uso

enquanto as folhas das árvores
percorrem o seu caminho até ao chão.

e tu vês a minha mão
e como os vidros
reflectem as minhas feridas

agora que as casas são imagens
e as pedras cumprem o que lhes foi dado.

chega aqui: no teu ouvido

nunca envelheci

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

a rosa

durante anos
envelhecemos desalmadamente.
fizemos o possível
para que tempo frio e terra
sobre nós viessem em derrocadas

tínhamos pressa
e a cada dia acrescentámos
correrias e becos sem saída.

nem todos chegámos aqui

houve quem na pressa
tenha tropeçado numa coisa estranha
alguns desistiram
alguns quiseram ser como as árvores

outros como eu

cedo demais souberam
o nome da rosa

sábado, 24 de fevereiro de 2007

naqueles dias frios
em que nada se move no mundo

só uma chuva muito fina
a esconder as ruas
e estas mãos tão próximas

porque acredito em ti
e nas árvores

e encontro os teus passos
onde o meu coração dorme

porque tudo no mundo
me fala de ti

e então acredito
que por alguma coisa grande
estamos aqui

sábado, 17 de fevereiro de 2007

a morte é tão natural
e as flores nas janelas
falam de nós

asas de pássaros

domingo, 11 de fevereiro de 2007

ao antónio bernardo

soube que mudaste de rua
e desde então tudo mudou neste lado

as árvores e as plantas estão a florir
outra vez
os animais descansam nas sombras
os homens fingem existir
as mulheres abraçam os filhos
num sono desigual.

e em tudo isto existe
uma espécie de alegria

sábado, 3 de fevereiro de 2007

quando fizeste o mundo
acreditei que estarias nele para sempre

o teu ar pesado
muito cedo envelhecido
enquanto as rosas cresciam

e o modo como sem saberes
me aprendeste
que a nossa vida não é daqui

e como a dor é uma coisa natural
em cujos nomes esquecemos casas e desertos

e nos sentamos um dia à espera
esperando sempre que nunca aconteça mal
a quem amamos

apesar de sabermos todos
que nada fica neste lado
senão a doce alegria de termos um dia sido
um milagre uma voz

uma vida
que ninguém podia fazer por nós