e tu descias devagar na água
para que não se apagasse a luz
percorrendo as ruas de uma cidade
que não existe
abrindo as flores
de um tempo apenas imaginado.
mas isso que importa
se tu eras a chuva
e minha era a mão
que escreveu os poemas
do teu livro de cabeceira
estas coisas me deixas
um pouco de água
onde há luz e chuva
como nos países das rosas
e devia falar-te dos pássaros
da tua mão iluminada
que jamais tocou
para além das laranjas
onde vi crescer as tuas asas
e as pessoas perguntam-me
como posso amar-te tanto
e eu não sei.
desde há dias
que vivo iluminado
por esta ignorância feliz
o amor autêntico
prescinde de cartas
bastam-lhe
os frágeis sinais na água
ou os gestos iluminados dos pássaros
quando passam
na cálida luz intacta
deixo aqui esta flor
para que possa crescer
num lugar do teu quintal
e amanhã a encontres
coberta de sinais de chuva
e marcas desta mão
senhor
livrai-nos dos políticos
e das suas mãos escuras
e dai-nos força e paciência
e o dom da espera sem exagerar
e permiti que a nossa ignorância
não nos encha de orgulho
e cegue nos momentos de exaltação
e não nos deixeis cair na tentação
de os levar aos nossos ombros
ou acenar com bandeirinhas
senhor
livrai-nos dos políticos
pois a nós falta coragem
esta noite irei caminhar
sobre as águas deste rio
e tu perguntas
mas não é difícil caminhar sobre
a água?
mais difícil é ser feliz
sento-me a imaginar
como será a cidade onde vives
o cheiro das ruas por onde passas
em que árvores pousam os teus pássaros
ou que língua falam as tuas crianças
e de que anjos contas estóriasquando vão adormecer.
que rastos deixarias tu na areia
caso existisses
tudo em ti é luz e água
e por isso ao caminhares
levas contigo um arco-íris
e as árvores movem-se
as ruas movem-se
tudo se move à tua volta
quando choves
como puede la luzparecerse tanto a tiy despues hay las naranjasdonde tocan tus manos iluminadasinaugurando en el mundo un misterioque solo las aves presienteny pregunto como puedes tu serun árbol tan fecundoy de tus hojas agua y rosasy te pareces tanto con la lluvia
e este é o meu segredo
e nele amar-te como se fosses água
e seres de mim a sede
e o lugar onde tudo falta
e trazer-te como se fosses nada
ou talvez uma palavra impossível
uma flor plantada no coração
e ser a tua formiga a tua árvore
e deitar-me nas tuas mãos
como se fosses Deus
há um mistério em ti
que não entendo
e nele os pássaros movem-se
como rosas em silêncio
e há dias
em que as horas não passam
e são barcos presos na areia
e outros
em que as noites têm estrelas
que as minhas mãos quase
podem agarrar
ou talvez sejam as tuas asas
quando passas
deixando sinais na água